Sexta-feira, 12 de Junho de 2009

Hipnose em Mulheres – Conto de André Carneiro

Acabei de ler este conto de André Carneiro sobre hipnose, ele menciona hipnotizar mulheres para que tirem a roupa, ou hipnose em mulheres para que tenham orgasmos fantásticos!

Óbvio que não é por esses motivos que o conto está aqui, mas porque é uma leitura super interessante… Também menciona muitas possibilidades com hipnose, como transmissão de pensamento, previsão do futuro (e de alteração dos acontecimentos futuros), criação de neurose artificial no paciente, e associação de hipnose a parapsicologia.

O tarado sexual hipnotizador do conto acaba por ter sucesso com as suas experiências de hipnose com… claro, com a mulher que hipnotizou para que tivesse orgasmos maravilhosos com ele…

Não tenho a certeza sobre qual é o título deste conto porque ele é referido numa página com o nome "Por atrás da testa", e em outra como "Por atrás da porta da testa". Como nenhum destes nomes faz muito sentido, fiquei na dúvida, lol!

Mas seja qual for o nome do conto, eu achei tão bom que quero partilhar. O texto que se segue foi copiado do site Meio Tom Poesia & Prosa onde o encontrei totalmente por acaso, e que tem também outros contos online de diversos autores.

Conto de André Carneiro sobre hipnose

Conto por atrás da porta da testa

Desde jovem lera muito sobre hipnose. Hipnotizar é fácil. Difícil é o que fazer com o paciente depois de hipnotizado, frase que ele mesmo escreveu mais tarde, depois de praticar e ter sucesso. Acumulou experiência como analista, fazia clínica psicológica associada a hipnose. A ciência, após um século, não avançara na explicação do fenômeno. Ainda ha controvérsia sobre quais sugestões são atendidas ou não, por um bom paciente. Ordens ilegais ou criminosas para conseguir vantagens, os resultados não são divulgados em uma tese de doutorado, embora fosse de grande valia para a ciência. Criar uma neurose artificial intencionalmente é possível, embora nenhum caso se publique, por óbvias razões. Muitas afirmativas são meras deduções. Se uma jovem levada ao transe é solicitada a tirar a roupa, ela, provavelmente reage, volta do sono. Se for uma dançarina de strip, tiraria facilmente, porque esta habituada a isto. Ele desejava conferir estatisticamente o fato. Hipnotizar mulheres de variadas formações culturais e verificar quantas e quais tirariam a roupa, freiras, secretárias ou dançarinas. Talvez o resultado fugisse da lógica moralista.

Ele se chamava Joachim e, infelizmente, nunca fez essa experiência. Tinha um grande respeito pelos seus pacientes hipnotizados. Mas, para uma delas, sugeria maravilhosos orgasmos, com ele, e isso acontecia, de verdade. Porem, nada contra a ética. Sem hipnose ela ia para a cama também, porque se amavam, a hipnose era apenas um eficiente afrodisíaco. Livros temem, até hoje, comentar reações sexuais, a medicina, durante séculos, considerou as sofisticações nos prazeres do sexo como desvios, só admitindo o alvo específico da manutenção da espécie.

Ele se espantava como o assunto hipnose era ignorado pelos médicos.

Joachim Mouton Ferretti, indicava pelo nome seus ascendentes alemães, franceses e italianos. Talvez essa mistura tenha contribuído para sua ausência de patriotismo. Embora absurdo, nascer de um lado ou de outro de uma fronteira, determina fidelidades, até o extremo de ser obrigado a pegar em armas e matar os do lado de lá, não importando as opiniões pessoais. Também a ciência caminha atrelada aos interesses dos mais ricos, pessoas ou nações.

Dr. Joachim recebia pedidos de interessados em experimentar as "sensações" do sono hipnótico. Era fácil satisfaze-los, dando-lhes sugerências de se sentirem muito bem durante e depois da hipnose. Mas, só isso era uma perda de tempo.

Associar a hipnose aos seus conhecimentos de parapsicologia lhe interessava mais. Entre outras coisas, passou a repetir metodicamente duas tentativas. Na primeira, simplesmente pedia ao hipnotizado que fosse até o dia seguinte e lhe dissesse a manchete de um jornal. No segundo teste, atrás da parede, no outro compartimento fechado de sua casa, havia uma pequena mesa com dois ou três objetos raros. Durante o transe, "eliminava" o muro e pedia que se descrevesse o que existia atrás da parede.

Alguns pacientes nada respondiam, outros falavam, tentavam acertar o que existia no outro quarto.

Joachim só conseguira aproximações interessantes, mas nenhum sucesso expressivo. Com aquela jovem com a qual ia para a cama, com ou sem hipnose, ele se surpreendeu. Após um breve transe, disse que havia uma bola de vidro, um pente rústico feito por índios e um livro de versos, em cima da mesa. Joachim espantou-se, a descrição era exata. Antes mesmo de acorda-la, foi examinar se a porta da sala estava fechada, a chave escondida em um canto. Ela era muito inteligente, sabia das perguntas feitas aos outros, decerto achara o esconderijo da chave, ela tinha a liberdade de andar pela casa.

Quando voltou do transe, sorrindo, ele disse:
-Foi genial, você descobriu a chave e entrou no quarto?
Ela não entendeu, perguntou se acertara, ele disse que sim, ela pediu para conferir. Foram até a mesa e os objetos. Ela não sabia o que tinha falado. Sincera, não havia sentido engana-lo tanto tempo.

Joachim lamentou não ter feito a experiência mais cientificamente, com testemunhas e outras precauções. Um acerto daquele era raro. Queria repeti-lo, mas era duvidoso um êxito igual. A paranormalidade acontece e as vezes jamais se repete. Ele deixou passar uma semana. Desistiu de incluir outras pessoas na experiência. Ele e Renata eram mais do que paciente e pesquisador. Até isso poderia ter influenciado o resultado. Joachim comprou uma caixa de madeira, com chave. Colocou dentro uma pedra em formato de ovo, um velho óculos escuros e um anel barato com uma pedra vermelha. Fechou a caixa, colocou a chave dentro de um velho dicionário de Latim, na estante dos livros.

Convidou Renata para a experiência, com uma certa displicência, para não criar expectativas. Colocou a caixa atrás da parede. Repetiu a hipnose no mesmo tempo da outra vez.

Perguntou o que havia na caixa. Renata falou pausadamente:
-Tem um ovo de pedra, óculos escuros e... um dicionário de Latim.

Repetira-se o acerto. Não ter citado o anel e sim o dicionário de Latim, onde ocultara a chave, era um lapso interessante. Sugeria transmissão de pensamento, dele para ela, e não uma visão cognitiva, à distancia. Renata achou engraçado o engano, ela não encarava o fato notável e raríssimo como ele, que toda a vida estudara o assunto e só fôra testemunha de dois ou três ocorrências muito menos completas do que aquelas. Joachim resolveu testar se ele passava a informação para ela. Teria de repetir a experiência em "duplo cego", ele também ignorando quais seriam os objetos para adivinhar. Descartou pedir a alguém escolher, Renata poderia absorver dele o que era. Precisava encontrar algo não gravado na mente de alguém, recentemente. Visitou depósitos de coisas usadas. Teve sorte. Ia para o lixo um tambor cheio de coisas quebradas. Pegou uma lata, sem abri-la. Chamou Renata, fez uma breve sessão. Ela disse que via uma lata com alguns fios de cobre e a cabeça de uma boneca. Joachim explicou, ele também não sabia o que havia. Ansiosos, foram os dois verificar. Havia alguns fios de cobre e uma pequena cabeça de uma boneca de plástico.

Desta vez, era certo, não houvera uma transmissão de pensamento, dele para ela. Se fôra arrancado da cabeça de alguém que manuseou aquela lata, era fantástico. Centenas de coisas passavam pela cabeça de Joachim. Em toda a história da parapsicologia, eram raríssimos e as vezes duvidosos os fenômenos feitos sob encomenda. Havia um americano que anunciava pagar um milhão de dólares para quem provocasse um fato evidente e fiscalizado. Restaria investigar se possuía esse milhão. O grande publico sempre fez a maior confusão entre os mágicos profissionais e a paranormalidade legítima, analisada pelo especialista. Qualquer prestidigitador de circo manipula as cartas do baralho com uma rapidez que os olhos do espectador não percebem. Falsas transmissões de pensamento são feitas com um velho código de palavras repetidas, várias entonações etc. e existem transmissores eletrônicos praticamente invisíveis. A ingênua credulidade da maioria, aspira pelo consolo do sobrenatural aparentemente provado diante deles. Mesmo sem provas, adivinhos, cartomantes, sensitivos e muitos apoiados por uma crença qualquer, enganam, cobram e a clientela não diminue.

Joachim temia que, sem aviso, Renata não mais conseguisse seus milagres. Nada garantiria uma demonstração pública com sucesso. E mesmo que tivesse, Joachim sabia, a publicidade seria vulgar, indiscreta e anti-científica. Renata, até aquele momento, não absorvera o extraordinário do fato. Conhecia o assunto mais através de Joachim. Era inevitável, ele buscava um meio de faze-la adivinhar algo em que ambos pudessem lucrar. Só pensava, ainda não queria compartilhar com ela, cuja ética de uma pureza imprevisível, talvez recusasse a tentativa, cuja honestidade não preocupava Joachim.

Em um país que proibia os casinos, proibia o célebre jogo do bicho, embora funcionasse abertamente, onde o governo patrocinava loterias de toda a espécie, as contradições eram aceitas pacificamente, como a proibição de algumas drogas e a legalidade de outras, as vezes mais perigosas e mortais do que as sujeitas a penas severas de prisão.

Qualquer leigo acharia simples explorar a "visão" de Renata. Bastaria prever o prêmio da loteria. Joachim hesitava em tentar um acerto. Tinha acontecido uma transmissão de pensamento e uma visão cognitiva, a distancia. Os objetos adivinhados existiam antes, mas os números da loteria estão no futuro, não é a mesma coisa. Segundo uma teoria quântica, se poderia alcançar o futuro e retornar ao presente.

Joachim tocou no assunto de leve:
-Que tal a gente experimentar, qualquer dia, se você adivinha um número da loteria?.
Ela concordou, parecia parte do mesmo jogo. Riu, perguntou se apostariam, ele disse que sim. Ela fôra capaz de saber o que seus olhos não viram, será que enxergaria o que ainda iria acontecer?

Joachim começou a investigar as dezenas de sorteios e megas-loterias. Um poder cinético seria capaz de acelerar ou brecar as engrenagens dos aparelhos de sorteio, ou, manobrar aquelas bolinhas numeradas dançando nas gaiolas redondas. Pobre parapsicologia, estava ainda empenhada em provar fenômenos e longe de explicar como aconteciam. Joachim temia fazer uma experiência preliminar, testar se ela avançaria para o futuro. Ele lembrou-se da historia infantil da galinha dos ovos de ouro. A ambição fez o dono matar e abrir a galinha para ganhar todos os ovos, que não estavam lá, só apareciam quando ela botava. Renata poderia acertar um teste, a notícia de um jornal do dia seguinte e depois não acertar mais nada.

Joachim começou a hipnose nos mesmos horários e do mesmo jeito das vezes anteriores, mas foi difícil sorrir, fingir uma falsa tranqüilidade. Ele tinha se informado de como se procedia o sorteio e como jogar nos números que lhes trariam una fortuna, se acertassem todos.

No momento em que perguntou a ela qual número estava saindo, percebeu algo anormal. Ela agitava-se, parecia sofrer, Joachim já preparava uma frase para tranquilisa-la e logo acorda-la, quando ela disse, de maneira emocioada:
-Desastre, desastre, o carro bateu, bert... Albert está morto, está morto...
Talvez fosse falar mais alguma coisa, mas Joachim deu-lhe ordens para se acalmar, esquecer, voltar ao presente, onde tudo estava bem...

Com as sugestões ela acordou tranqüila, logo ansiosa para saber o que enxergara. Joachim, calmamente, contou a espécie de intromissão, de desvio, "você enxergou um desastre de carro com um tal Albert, ou Alberto."

Ela desconhecia alguém com esse nome. Era algo relativo aos participantes do sorteio, talvez um funcionário.

Decidiram investigar, visitaram o local tentaram localizar o tal Albert. Seria lamentável se fosse um futuro espectador, o que tornaria impossível localiza-lo. Quando já se retiravam, alguém lembrou do fiscal federal que acompanhava o sorteio e se chamava Albert. Passaram um bom tempo em sua busca, conseguiram fazer um contato pelo telefone. Joachim se identificou como analista, deu endereço, números da identidade, até referências. O tal Albert. do outro lado, começou a ficar nervoso e exigiu que explicasse imediatamente do que se tratava. Joachim, nada falou de hipnose. Disse que uma cliente tinha sonhado com o sorteio e visualizado um desastre de automóvel onde alguém chamado Albert fôra mortalmente ferido. Nada mais havia o que dizer. Albert, impressionado, agradeceu, disse que iria ter cuidado. No mesmo dia do sorteio, quando terminou, ele telefonou. Não fora para o local guiando o próprio carro. Tomou um taxi e recomendou ao motorista para guiar bem lentamente. Uma esquina antes do destino, uma caminhonete perdeu a direção e atingiu o taxi. O motorista sofreu ferimentos leves e Albert saiu ileso, fora a emoção. O homem agradeceu o aviso, Joachim disse ter sido uma premonição, ou feliz coincidência e o episódio ficou por aí, sem mais comentários.

O que ocorrera?

Pelo senso comum, Renata "enxergou" o desastre, de alguém ligado ao sorteio e foi o que narrou. Joachim sabia não existir uma técnica que conduzisse ao alvo, sem desvios. Nada tão específico encontraria nas narrativas de eventos como esse. Teria que tentar de novo, embora fosse ponderável a paciente, desviando do alvo buscar inconscientemente rejeitar o pedido, ou achar mais importante evitar aquela morte. Dezenas de considerações incluiriam a hipótese acadêmica da coincidência, o desastre visto com o Albert se dera em outro carro, com outro motorista e ninguém morrera. Pode-se visualizar o futuro? e alem disso, modifica-lo?

Joachim evitava se enveredar por esse caminho. Seria o mesmo filosofar sobre o futuro do ser humano, a existência da alma ou os critérios de uma divindade. Ele gostaria de conversar no assunto, mas não queria ninguém no segredo. Renata parecia esquecida da fortuna lotérica perdida. Sua visão preservara Albert, mudando as circunstâncias futuras. Sentia-se bem. Não ficara rica mas salvara uma vida.

Ela aceitava as coisas sem perturbadoras especulações. Salvando a vida de Albert, que resolveu tomar o taxi, provocou os prejuízos do carro e os ferimentos do motorista, curiosa troca, feita por um anjo ou por um malicioso demônio?

Joachim tentava acertar um alvo, no futuro. Jogar primeiro e, cineticamente, colocar esse número na máquina do sorteio? Ou saber qual seria o número, para jogar nele com certeza? Não havia técnicas para optar. Com as loterias não seria fácil. Os bilhetes vão para o país inteiro, descobri-los seria duvidoso. Os jogos onde se colocam varias dezenas seriam os mais acessíveis, embora as vezes tivessem muitos acertadores e dessem pouco rendimento. Jockey Club, corrida de cavalos também dependiam de fatores que limitavam os lucros. Acertar uma vez era fantástico, talvez nunca mais se repetisse e ganhar insignificância seria uma frustração. Também, não podia esquecer a velha teoria quântica do observador influindo no resultado da experiência. Conversara há pouco sobre o imenso volume de ondas invisíveis que nos atingem dia e noite. Uma parte criada pelo ser humano, ondas hertzianas, estações de rádio, televisão, celulares, atravessando barreiras, cobrindo o planeta, com prováveis efeitos desconhecidos e nem ainda detectados.

Renata e ele se entendiam bem, as vezes bastava uma exclamação, um gesto e a comunicação se completava. Riam, porque se adivinhavam, mutuamente. Casais saberm como isso acontece, à revelia da linguagem, sempre imperfeita, com vocábulos que repetimos, acrescentamos sinônimos e o pensamento permanece escondido atrás do nosso desejo, do nosso desconhecimento de quem somos. Se Renata captava um pensamento, pensar nos números futuros, talvez fosse mais eficiente do que palavras. Joachim treinou pensamentos diversos, na procura daquele que fosse inteligível para ela. Palavras, ainda temos o dicionário para conferir. Não temos visores para pensamentos. Eles dançam atrás dos olhos e, as vezes, não nos obedecem, agem ao contrário, dirigidos pelo demônio, gêmeo siamês de um anjo, com catecismos opostos. Joachim navegava nas dúvidas. Teria de planejar a redação exata das palavras que Renata transformaria em... ação, ou visão, no futuro. Na parapsicologia, imagens pareciam ser melhor transmitidas do que palavras, mas estas não existem sem um pensamento condutor. Pensamos, mas não há meios de mostra-los eficientemente aos outros. É como um filme baseado em um sonho, não se consegue reproduzi-lo porque não é feito só de imagens. Caóticos e inconsistentes, não treinamos a linguagem do pensamento, seu estilo, sua gramática. Mesmo usando perfeitas palavras, os ouvidos alheios traduzem, interpretam e jamais reconstituem exatamente o que pensamos.

A parapsicologia deixara as "cartas Zenner" e as experiências com fatores explícitos. Usam o novo "ganzfeld". Se um filme mostra aviões jogando bombas sobre o Krenlim, um paranormal , sem vê-lo, pode descrever pássaros negros atacando prédios com o signo da foice e do martelo, um acerto metafórico. Essas aproximações nada adiantariam, para quem precisa de números exatos.

A mega-sena acumulava uma soma respeitável. Dois dias antes do sorteio, Joachim e Renata se reuniram para a experiência. Ele se controlava para manter um ambiente, sem comentários antecipados de nenhuma espécie. Renata calma, como sempre, ele disfarçava a ansiosa expectativa. Quando ela atingiu o sono profundo, chamado sonambúlico, ele pegou uma folha de papel impressa no computador, Não devia improvisar, esquecer algo importante em uma hora daquelas. Começou com a descrição do local do sorteio, a máquina de bolas, o necessário para a "visão" de Renata viajar ao futuro e trazer os números.

Joachim ligara um gravador, não podia confiar só nos ouvidos e memória. Chegou o instante crucial:
-Renata, quais as dezenas sorteadas?. Você esta vendo, diga lentamente quais são os números.
Renata permanecia calada, se agitava um pouco, o que não era um bom sinal. Começou a falar, como se estivesse presenciando o que descrevia:
-A máquina não deixa cair o número, um homem examina, entra por baixo. A máquina se enclina, quebra, não vejo mais, não vejo mais...

Joachim acordou-a lentamente, deu-lhe sugestões de calma. Quando sentiu que ela estava bem, contou o acontecido. Era uma situação paradoxal. A experiência, em princípio, tinha sido um sucesso. Renata vira o futuro. Restava, é claro, a confirmação, dois dias depois. A máquina iria quebrar, o sorteio seria adiado. Joachim jamais poderia preveni-los. Se confirmado, teriam certeza de uma sabotagem, feita por quem telefonara.

Uma estação de rádio transmitia o sorteio. Emocionado, Joachim ouviu do locutor, dois dias depois, quase as mesmas palavras de Renata. Ele ligou para a organização, dizendo-se repórter e perguntou se a máquina, no passado, quebrara, alguma vez: "Não. nunca, é a primeira vez, essa máquina não pode quebrar, suspeitamos de algo intencional, não sabemos o motivo, talvez vandalismo, unicamente."

Mais uma vez o casal não tinha os números da sorte, só dois desastres. Embora em circunstâncias diferentes, eram desastres. Joachim lutava para deixar de lado as hipóteses, não havia precedentes para se analisar, mas o pensamento é um peixe escorregadio, pode até criar asas para alcançar o inexplicável. "Mactub". Estava escrito. Quando adolescente lera esse ditado oriental nas aventuras de Marco Polo. Sempre lhe pareceu ingênua a teoria de um destino determinado, inabalável. É comum pessoas dizerem: "tinha chegado a sua hora", para exprimir um futuro inevitável. Renata vira a morte de Albert. Avisado, ele torceu o destino, o motorista só foi ferido, ambos sobreviveram. Renata não interferiu no futuro diretamente, apenas orientou Albert, que alterou o que estava escrito. Com a máquina do sorteio, Renata previu o pequeno desastre. Era inevitável suspeitar que ela, inconscientemente, tinha quebrado a máquina. Joachim não fez a tolice de uma pergunta direta, mas. calmo, levantou o assunto da ética ou da moralidade em ganhar um prêmio de maneira... discutível. Ele se convenceu, Renata queria ganhar o dinheiro, ela não punha restrição no uso da sua capacidade em obte-lo. Seria uma extraordinária coincidência o defeito da máquina, não importa se provocado por alguém, justamente naquele dia? Se foi Renata a culpada, mesmo sem saber, que fantástico poder tem a mente, ou seja lá o que for, capaz de atravessar o espaço e atuar fisicamente sobre um sólido objeto?

Jung imaginou um inconsciente coletivo. Haveria um código coletivo, alguma lei cósmica, criada por Deus, ou pelos Deuses, ou por uma Sabedoria Criadora, que ordenasse um comportamento para todo o universo, coisas vivas ou aparentemente inanimadas, mas também feitas de átomos e suas partículas? Joachim deveria estar incluído no mistério, afinal, ele e Renata eram um só desejo, naquela operação a ultrapassar a velocidade da luz, embora a matemática de Joachim fosse de uma física primária, incapaz de elaborar a mais simples equação.

O cotidiano é um monstro monótono, determina os trilhos das submissões convencionais, temos de repetir os atos inevitáveis de dormir, vestir, alimentar, ganhar a vida... Joachim e Renata, vistos pelos outros, eram normais, bem comportados, não sabiam nem controlavam desastres futuros e se revelassem, haveria risos, ambos brincavam ou não estavam regulando bem. Embora, paradoxalmente. as "visões" de Renata eram insignificantes se comparadas com as vistas na televisão, viagens ao futuro e no passado, alienígenas entre nós, vampiros detetives, sem falar dos desenhos animados, onde são muito poucos os personagens que não sabem voar. Em nosso mundo fantástico, a palavra realidade, inteiramente falsa, é acreditada e reconstituída academicamente.

Renata nem tanto, mas Joachim passava uma boa parte do seu dia rememorando, planejando dezenas de teorias. Para testa-las só com um grande Instituto, sustentado por uma fundação, com centenas de cientistas e outro tanto de pacientes, metade deles em transe, adivinhando números futuros, quebrando máquinas de sorteio... Joachim as vezes partia para o exagero, feito para rir de si mesmo. Ele sempre ironizara as cartomantes, geralmente pobres, trabalhando o dia inteiro, até aos domingos, anunciando a capacidade de manobrar a sorte, tornar ricos os clientes generosos. Por que não usavam seus poderes consigo mesmas? Será que a auto-mágica era proibida no reino dos feiticeiros? Ou aqueles mágicos verdadeiros, como Joachim e Renata, trabalhavam e ficavam ricos secretamente? Considerações inúteis, mas Joachim meditava nelas seriamente. O materialismo orgulhoso do século vinte, considerava superstição o que não viesse das teses universitárias. A física quântica, que nem o gênio de Einstein pode absorver, descreve um mundo onde a estranheza entra nas equações, o cientista é também alquimista, as bruxas escondidas desde a Inquisição, aparecem nas tevês familiares dando entrevistas.

Renata perguntou a Joachim quando fariam outra tentativa. Ele ficou empolgado. Ela pedindo, ele tinha a intuição de que daria certo.

Embora a tentativa anterior não levasse ao lucro, fôra um sucesso. Joachim iria repetir o mesmo procedimento se não aparecesse algo melhor. Renata não pensava no assunto como ele. Ela se integrava nas hipóteses alternativas com naturalidade. Joachim o fazia a custa de quebrar as amarras do seu condicionamento e gozar o fascínio deste admirável mundo novo. Ao lado das suas científicas exigências, cultivava uma infantil ingenuidade. Ele rezaria pelo sucesso, para alguma entidade específica, se esta existisse.

A segunda tentativa foi combinada como as anteriores, sem comentários, Joachim usando toda sua capacidade teatral para aparentar naturalidade. Renata o seguia, mas sem esforço. Ele tinha lido e relido seu plano anterior, feito correções, não muito grandes. Podia seguir com precisão a hora do sorteio, pela lei, os horários eram rigorosos. Renata, um pouco pálida mas respirando profundamente, parecia bem. Joachim precisou de todo o seu controle. No mesmo horário do sorteio, que seria dois dias depois, ele perguntou o número das dezenas. Lentamente, ela foi dizendo os números e não os repetia. Joachim testara vinte vezes seu gravador, o microfone estava no lugar exato, ainda escreveu cada número com caneta de ponta grossa em uma prancheta. Depois disso, Renata acordada, ele nem perguntou o que vira ou outros detalhes. Também essa mega-sena acumulada, era uma das maiores quantias em toda sua história. O simples papel com o jogo, Renata e Joachim guardaram no cofre e se beijaram. Passaram juntos os dois dias de espera. Deixaram adiados os compromissos, quem sabe do futuro, não precisa se importar com o cotidiano.

Joachim e Renata assistiram a transmissão do sorteio. Felizmente os locutores repetem sempre, até demais. Todos os números correspondiam. Renata gritou e pulou como se tivesse ganho o maior presente de Papai Noel. E tinha mesmo. Joachim ficou pálido, o coração batendo, teve de sentar-se, Renata preocupada, foi buscar um copo de água com açúcar, ele bebeu, embora soubesse que aquilo nada adiantava. Tudo valera a pena. Estavam ricos. Mas Joachim ainda não sorrira nem comemorara. Havia um minúsculo papel no cofre. Enquanto não fosse um cheque, um depósito bancário, ele desconfiava. Ela tentou anima-lo, dançar, sorrir, ele fez tudo isso, mas percebia-se que não era verdadeiro. No dia seguinte, pela manhã, foram na repartição pública encarregada dos pagamentos. Anos atrás, repórteres e até curiosos ficavam lá a espera dos felizardos. Depois de centenas de reclamações, já não é possível identificar quais os ganhadores, que são introduzidos discretamente em uma sala. Sentados, uns minutos à espera, Joachim achou estranho. O funcionário chegou, desculpou-se, disse que fôra confirmar um fax, o pagamento tinha sido adiado até se resolver um embargo feito pelo fiscal federal do sorteio. Foi a única informação, mais teriam de procurar as autoridades competentes. Joachim saiu de lá e sua primeira providência foi telefonar para um advogado competente, que ele conhecia. Antes de ir ao seu escritório, foi saber o porque do não pagamento.

O fiscal federal, Albert Schmidt da Costa, de quem dependia a fiscalização e aprovação de cada sorteio, tinha embargado o processo, alegando funcionamento atípico do aparelho, o que exigia uma perícia técnica.

Joachim teve logo uma cópia dos documentos. Ele já suspeitara pelo telefone, o tal Albert devia ser um obsessivo, cronometrava o tempo que as bolinhas levavam para percorrer a máquina, na saída. Aquele dia, elas levaram o dobro, isso não era normal, podia indicar algo suspeito. Albert repetia palavras, descrevia minúcias. O advogado entrou com as razões de Joachim, peritos foram nomeados e no dia marcado Joachim estava lá, com Renata. Tinham resolvido ir juntos, era um desafio do destino, como se costuma dizer, que o mesmo homem cuja vida Renata tinha salvo, ali estava, impedindo a sua felicidade.

Joachim pediu a um funcionário que lhe apresentasse Albert. Este, tinha acabado de saber que o ganhador do prêmio, era o homem que lhe telefonara, salvando-lhe a vida. Albert perturbado, gaguejava, abraçou Renata, deduziu que fôra ela quem sonhara o desastre. Joachim não achou conveniente conversarem naquele local, marcou um almoço.

Os peritos nada acharam na máquina que pudesse indicar uma fraude. Cronometraram o funcionamento, estava de acordo com registros anteriores do minucioso fiscal Albert da Costa. Este, retirou o embargo depois do almoço com o casal.

Joachim contara a ele a verdade, nunca total, porque o mundo é feito de pedaços. Renata sonhava futuros e enxergara o desastre e os números das bolinhas correndo lentamente aquele dia, para que ela pudesse ver sem dificuldades. O fiscal Albert, pouco tempo depois, comprou uma linda casa em um bairro chic. Ele tinha anotado o endereço do motorista do taxi e foi o intermediário que lhe adquiriu um belo carro zero.

Dr. Joachim fechou a sua clínica, só faz pesquisas e escreve artigos. Não mais hipnotiza, somente Renata, por causa dos orgasmos maravilhosos. Quanto ao orgasmo lotérico, bastou aquele único, onde as bolas da sorte cairam lentamente, simbolicamente, sobre Renata, deitada a quilômetros de distância, no conúbio com os números mágicos deste mundo de irreal realidade.

por Sergio Alex às 23:36
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